sobre a localidade
No interior verdejante do concelho de Marco de Canaveses, distrito do Porto, Vila Boa de Quires e Maureles estende-se por campos, encostas e casario. Nasceu da união de duas localidades e guarda um capítulo curioso: as Obras do Fidalgo, um solar que ficou por acabar e que, pela sua incompletude, se tornou memória e assunto da terra.
história
Há terras que se guardam no interior verdejante do Marco de Canaveses como se o tempo ali corresse mais devagar, e Vila Boa de Quires e Maureles é uma delas. Nascida do abraço de duas localidades que aprenderam a caminhar juntas, esta é uma daquelas paragens onde a paisagem rural se estende em campos, encostas e casario, e onde as gentes teimam em manter vivo aquilo que os seus receberam de mão em mão.
A história desta terra guarda um capítulo curioso e teimoso: as chamadas Obras do Fidalgo, um solar que ficou por acabar e que, precisamente por essa incompletude, se tornou memória e assunto. Há algo de profundamente humano nessa mansão suspensa no tempo, um sonho grandioso interrompido que ficou a marcar a paisagem e o imaginário local. Passa-se por ali e fica-se a pensar em quem a idealizou, no que teria sido e no que nunca chegou a ser. As pedras que não chegaram a fechar contam, à sua maneira, uma história tão eloquente quanto a de qualquer edifício terminado.
Quem procura pedra com alma encontra em Vila Boa de Quires a Igreja de Santo André, um notável templo românico onde se lê a devoção antiga de várias gerações. Ali, no volume sóbrio e na solidez das paredes, está aquela arte que atravessou séculos e que continua a impor respeito a quem se aproxima. É o românico que tanto define esta região do país, e este exemplar merece pausa e olhar demorado.
Mas a mesma terra que preserva o antigo não teve medo do moderno. A Igreja de Santa Maria é uma obra de arquitectura contemporânea assinada por Álvaro Siza Vieira, um dos grandes nomes da arquitectura portuguesa reconhecido muito para lá das fronteiras. Ter num mesmo território um templo românico e uma criação de Siza é, em si, uma riqueza rara: é como poder passear entre dois tempos, sentir num deles o peso da fé secular esculpida na pedra e, no outro, a leveza, a luz e o rigor das linhas que fazem da arquitectura portuguesa contemporânea um motivo de orgulho. Estas duas igrejas, cada uma no seu registo, são a alma construída de Vila Boa de Quires e Maureles.
As tradições daqui vivem do sentido de comunidade, desse espírito que junta vizinhos e famílias em torno da cultura, da música e daquilo que os antepassados deixaram. Há um cuidado genuíno em promover o património e em manter viva a chama do convívio, em não deixar que a modernidade apague os gestos, as memórias e o orgulho de pertencer a esta terra. É esse laço entre gerações, esse querer preservar e celebrar em conjunto, que dá a Vila Boa de Quires e Maureles o seu carácter mais verdadeiro.
À mesa, a terra mostra-se generosa e sem rodeios. O anho no forno é rei destas paragens: carne tenra, assada com paciência, que se desfaz e enche a casa de aromas nos dias de festejo e de reunião familiar. E não falta o bacalhau, esse companheiro de todas as mesas portuguesas, aqui preparado com o saber de quem herdou receitas e não as troca por modas. A cozinha desta freguesia assenta nos produtos da região, nos ingredientes de sempre trabalhados com respeito, servindo pratos que sabem a casa, a fogo lento e a partilha. Comer aqui é ser recebido, é sentar-se à mesa de quem trata o comensal como se fosse dos seus.
Vila Boa de Quires e Maureles é, no fundo, uma terra de contrastes que se completam: a pedra antiga e a linha moderna, o solar por acabar e as festas que se renovam, os campos e o casario, o antigo saber e a vontade de o mostrar. É lugar para quem gosta de descobrir devagar, de erguer os olhos a uma igreja centenária e, logo a seguir, admirar uma obra assinada por um mestre. Quem por aqui passa leva na memória os sabores fortes, o acolhimento das gentes e aquela sensação de ter estado num sítio que sabe quem é e de onde vem.