história
Há terras no planalto mirandês que parecem feitas de pedra, de silêncio e de vento, e que, ainda assim, guardam dentro de si uma vida teimosa e luminosa. Sendim, Atenor e a aldeia de Teixeira pertencem a esse mundo raiano do nordeste transmontano, lá onde o Douro cava fronteiras e a planície se estende até perder de vista. Quem chega a estas paragens percebe depressa que não se trata de um lugar de passagem, mas de um território com memória longa e teimosa.
A história destas terras mergulha fundo no tempo. Sendim, em particular, é guardiã de vestígios arqueológicos que falam de ocupações antigas, com ruínas romanas que lembram como estas paisagens já foram atravessadas por povos de outras eras. Pisar estes campos é, de certo modo, caminhar sobre camadas de séculos: há aqui o eco de legiões e de lavradores, de gentes que arrancaram à terra dura o sustento e que, geração após geração, foram moldando um modo de viver próprio, assente no trabalho do campo, na criação de gado e na proximidade de uma fronteira que sempre marcou o carácter mirandês.
As gentes destes lugares são de uma hospitalidade sem alarde, feitas da mesma matéria rija da paisagem. Em Sendim, em Atenor e na pequena Teixeira, a vida comunitária resistiu ao desgaste do tempo, e ainda hoje se nota esse apego às raízes, essa vontade de preservar o que os antigos deixaram. É um dos cantos do país onde a tradição não é cenário para turistas, mas verdade do quotidiano.
No capítulo do património, a aldeia de Teixeira oferece um dos tesouros mais notáveis desta união de freguesias: a Igreja Paroquial, também conhecida por Igreja de São Bartolomeu. É um templo de raízes quinhentistas, enriquecido depois pelo gosto barroco, onde a pedra granítica e os detalhes de outras épocas se juntam para contar a devoção de muitas gerações. Entrar nela é encontrar o recolhimento e a arte sacra que, por todo o planalto mirandês, acompanharam a fé das populações. Sendim, por seu lado, firma-se como lugar de descoberta para quem gosta de história antiga, graças aos seus sítios arqueológicos que convidam a imaginar como seria aqui a vida há dois mil anos.
As tradições são, talvez, a alma mais viva destas aldeias. Sendim ganhou nome muito para além da raia graças ao seu festival intercéltico, encontro de música que reúne grupos e sonoridades vindos das terras celtas da Europa e que faz vibrar a aldeia ao ritmo de gaitas, tambores e cantares. É uma celebração que mostra como estas terras do interior sabem abrir-se ao mundo sem perder o que são. A par desta festa de raiz celta, mantêm-se vivos os costumes religiosos e comunitários, com as suas músicas locais e o convívio das gentes, numa teia de solidariedade que ao longo do ano junta vizinhos em torno de causas comuns. Aqui a tradição faz-se de participação: cada romaria, cada festejo, nasce do esforço partilhado da comunidade.
E depois há a mesa, generosa como só a de Trás-os-Montes sabe ser. A gastronomia destas aldeias é a gastronomia mirandesa na sua plenitude, com a célebre posta à mirandesa a reinar entre os pratos — uma fatia de carne grossa, grelhada no ponto certo, que é quase um símbolo da região. A vitela mirandesa e o cordeiro mirandês, criados nestes pastos de planalto, dão carnes de qualidade reconhecida, e o porco entra na cozinha em todas as suas formas, dos assados aos enchidos. Entre estes últimos sobressai a tabafeia, fumeiro feito com carne e temperado com sal, alho, pimentão ou pimenta e salsa, acompanhado pelo pão de trigo da região e pelo azeite da terra. Para rematar a refeição, chegam os doces de sempre: os roscos, os sodos, os dormidos e a bola doce, receitas antigas que atravessaram gerações nas mãos das mulheres destas casas. E não faltam os vinhos, companhia obrigatória de uma mesa que não conhece pressa.
Visitar Sendim, Atenor e Teixeira é, no fundo, aceitar o convite de um Portugal profundo e autêntico, onde a pedra, a música, a fé e os sabores se dão as mãos. É deixar-se ganhar pelo horizonte amplo do planalto, pela paz das aldeias e pela hospitalidade de quem ainda sabe receber com o coração aberto.