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Brasão de Sobretâmega

Sobretâmega

Nas margens do Tâmega, a igreja de uma rainha e a memória de um antigo concelho.
1 festa registada nesta freguesia
Brian Boru via Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0 · fonte

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Na parte sul do concelho de Marco de Canaveses, debruçada sobre as margens do Tâmega, Sobretâmega foi outrora sede de um antigo município conhecido por Canaveses. De origens romanas, serviu de ponto de passagem e de termas junto ao rio. O seu coração é a Igreja de Santa Maria, erguida após 1320 sobre um templo anterior, ligada à memória da Rainha D. Mafalda e integrada na Rota do Românico.

história

Debruçada sobre as margens do Tâmega, na parte sul do concelho de Marco de Canaveses, Sobretâmega é uma daquelas terras que carregam séculos de história ainda que, à primeira vista, se mostrem discretas. Quem por aqui passa não imagina, de imediato, que este chão foi em tempos cabeça de um território próprio, e que por aqui circularam reis, mercadores e peregrinos ao longo das idades. Na verdade, Sobretâmega foi outrora sede de um antigo município conhecido por Canaveses, que abrangia também a vizinha freguesia de São Nicolau. Esse concelho antigo acabaria por ser integrado no termo de Soalhães, antes de a terra se juntar, finalmente, ao atual concelho de Marco de Canaveses. É uma história de passagens e absorções, de fronteiras que se moveram ao sabor dos tempos, mas que deixaram nesta freguesia a marca de uma dignidade antiga, de quem já foi centro e cabeça de um território. As gentes de Sobretâmega viveram sempre em diálogo com a terra e com o rio. O Tâmega, companheiro de sempre, moldou a paisagem e o quotidiano, e ainda hoje o Parque Fluvial do Tâmega convida ao sossego das margens, ao reencontro com uma natureza que acompanhou gerações de lavradores, moleiros e famílias que daqui tiraram o sustento. É um lugar onde o passar do tempo se sente devagar, ao ritmo das águas. O coração patrimonial da freguesia é, sem dúvida, a Igreja de Santa Maria de Sobretâmega. Reza a memória que foi a Rainha D. Mafalda, no século XII, quem a mandou fundar — e esse facto, por si só, basta para dar à terra um pergaminho de nobreza. O templo é notável pela sua construção de feição medieval tardia, com um sabor românico que se adivinha nas suas linhas sóbrias e sólidas. Não admira, por isso, que a igreja figure entre os monumentos da célebre Rota do Românico, esse roteiro que percorre os vales do Tâmega e do Sousa e que inclui também os templos de São Nicolau, Tabuado, Santo Isidoro, Soalhães, Vila Boa de Quires e Vila Boa do Bispo. Caminhar por esta rota é mergulhar na alma de uma região que soube guardar a sua pedra românica como um tesouro. Mas o património de Sobretâmega e das suas imediações não se esgota aqui. Há a Igreja Paroquial de Santa Maria Maior, em Canaveses, e a recatada Capela de São Sebastião, lugares de devoção e de encontro. E não muito longe ergue-se Tongóbriga, importante povoado romano cujas ruínas testemunham que estas terras foram habitadas e cobiçadas desde tempos muito recuados, quando por aqui se cruzavam caminhos e culturas de povos antigos. Nos costumes, Sobretâmega mantém-se fiel às raízes que a definem: a ligação ao rio, a devoção às suas igrejas e capelas, e o apego a uma vida comunitária onde a terra e a fé andam de mãos dadas. É uma freguesia que celebra o que é seu, que valoriza os produtos saídos dos campos e que ainda hoje reúne vizinhos em redor das suas tradições e dos seus sabores. E é precisamente à mesa que esta região do Marco de Canaveses revela boa parte da sua identidade. A gastronomia local é generosa e profundamente enraizada no mundo rural. O chamado 'Verde', ou bazulaque, é um dos pratos mais típicos destas bandas, daqueles que contam a história de um povo pela boca. A ele juntam-se as papas de milho, a broa do Freixo, o cozido à portuguesa e um saboroso arroz de feijão-verde com tomate, servido com as suas pataniscas. São sabores de fundo, honestos, que refletem a herança agrícola da terra e as influências de culturas antigas que por aqui deixaram raízes. Para acompanhar, nada melhor do que um copo de vinho Chapeleiro, companhia natural destas refeições de casa. E há ainda os produtos da terra, oferecidos com orgulho pelos lavradores locais, que fazem de Sobretâmega um destino onde se come como manda a tradição e se bebe como ensinaram os antigos. Visitar Sobretâmega é, no fundo, aceitar um convite ao essencial: a quietude do Tâmega, a pedra antiga de uma igreja fundada por uma rainha, o eco de um município que já foi cabeça de terras, e o sabor franco de uma cozinha que não engana ninguém. Uma pequena freguesia com uma grande memória.