história
Encravada na vertente norte da ilha da Madeira, Santana é terra de verde profundo e de horizontes que mergulham no Atlântico. Quem por aqui chega percebe depressa que está num lugar diferente, reconhecido pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera — distinção que fala, por si só, da riqueza de uma paisagem onde a mão do homem e a generosidade da natureza se encontram num equilíbrio raro.
As raízes de Santana afundam-se em séculos de história. Foi aqui que nasceu uma das freguesias mais antigas desta parte da ilha, berço de gerações de gentes trabalhadoras que domaram os socalcos, cultivaram as encostas e aprenderam a viver com o mar e a montanha ao mesmo tempo. Ao longo do tempo, Santana foi crescendo em importância e dignidade, até ascender à condição de cidade — um marco que a inscreveu numa página especial da história recente da Madeira, consagrando o reconhecimento de uma terra que soube afirmar-se.
No coração da freguesia ergue-se a Igreja Matriz de Santana, templo com cerca de quinhentos anos de história a contemplar a vila. Diz a memória do lugar que foi levantada onde outrora existia uma pequena capela ligada à paróquia de São Jorge — testemunho de que a fé e o culto marcam estas terras desde tempos muito antigos. Entrar na matriz é cruzar o limiar de meio milénio de orações, baptismos e despedidas, de festas e de luto, de uma comunidade que ali encontrou sempre o seu centro espiritual.
Junto à igreja repousa o Fontanário de Santa Ana, modesto na forma mas grande no significado, classificado como Monumento de Valor Local pela DRAC. É daqueles pormenores que facilmente passariam despercebidos ao viajante apressado, mas que contam a história quotidiana das gentes — o lugar onde se buscava a água, onde se trocavam notícias, onde a vida da terra se cruzava num ponto comum. Patrimónios assim, discretos e verdadeiros, são a alma de Santana.
As tradições de Santana vivem-se com intensidade. É uma terra onde a música e a dança não são adorno de ocasião, mas expressão natural de um povo festeiro e acolhedor. A cultura popular corre nas veias da freguesia, celebrada em encontros que juntam o campo e a lavoura, o repente e a cantiga, o mercado e o convívio nocturno que anima a vila. Há uma raiz agrícola fortíssima nestas gentes, que se orgulham do que a terra dá e do saber antigo de a trabalhar, e que fazem dos seus ajuntamentos verdadeiras montras do viver santanense — simples, genuíno e cheio de alegria.
À mesa, Santana conta-se através dos seus sabores. Daqui sobe a fama das trutas grelhadas do Ribeiro Frio, pescadas nas águas frescas da serra e servidas com a simplicidade que só os bons produtos permitem. O mar entra na cozinha com o atum em escabeche, bem temperado e aromático, e com o robusto bife de atum que faz as delícias de quem gosta de peixe de carácter. Juntam-se o gaiado frito, o polvo de vinha d'alhos, demorado e saboroso, e a fina caldeirada de peixe que reúne o melhor da pesca num prato de festa. Cada iguaria é um pedaço da identidade desta terra entre a montanha e o oceano, onde se come o que a serra e o mar oferecem com fartura.
Percorrer Santana é, no fundo, deixar-se levar por esta harmonia de contrastes: as águas límpidas da serra e a imensidão azul do Atlântico, a devoção centenária da matriz e a alegria contagiante das suas gentes, os campos trabalhados e as mesas generosas. É uma terra que não se visita à pressa — pede-se tempo, pede-se demora, pede-se a disposição de quem quer sentir a Madeira mais autêntica. Quem parte leva consigo a memória de um lugar onde a natureza foi coroada de reconhecimento mundial e onde, apesar de tudo, continua a ser o calor das pessoas o maior dos tesouros.