história
Há terras que guardam a memória nas pedras e nas árvores, e Mozelos é uma dessas. Encravada no concelho de Santa Maria da Feira, esta terra tem raízes que mergulham fundo no tempo: há notícia dela já num documento do longínquo ano de 1009, prova de que, muito antes de termos país feito, já aqui havia gente a lavrar, a rezar e a viver. Mais tarde, Mozelos haveria de figurar no Foral da Feira, concedido por D. Manuel I, sinal de que a terra tinha nome e lugar reconhecido no mapa das gentes da região.
Mas a história de Mozelos não é só feita de pergaminhos e selos reais. É também feita de dor e de coragem. Durante as invasões francesas, num tempo de medo e de fogo, sete inocentes foram executados nesta terra e os seus corpos pendurados num pinheiro. Foi um episódio trágico que ficou cravado na alma da comunidade — tão fundo que ainda hoje marca a própria heráldica da terra. É uma memória que Mozelos não deixou esquecer, honrando quem sofreu e perpetuando-a como lição e como identidade. Quem passa por aqui caminha, sem o saber, por chão que viu tanto trabalho honesto como sacrifício.
O património de Mozelos convida a parar e a olhar devagar. A Igreja de São Martinho, igreja matriz da freguesia, é o coração espiritual da terra, dedicada ao santo que é padroeiro destas gentes. Perto dela, a Capela do Pinheiro das Sete Cruzes guarda a lembrança daquele episódio das invasões, lugar de recolhimento e de respeito que liga o presente ao passado doloroso. E para quem gosta de sentir os ecos mais antigos, há o Castro de Sagitela, testemunho de povoamento recuado, dessas comunidades que escolheram os altos e as encostas para construir casa e defesa muito antes de aqui chegar o calendário cristão.
Mozelos pertence ao mesmo território que acolhe um dos monumentos mais imponentes do norte de Portugal: o Castelo de Santa Maria da Feira, fortaleza medieval notavelmente bem conservada, erguida há mais de mil anos, e a Igreja Matriz do Espírito Santo, templo imponente que domina a paisagem da sede do concelho. A quem visita Mozelos vale a pena alargar o passo até estes lugares vizinhos, assim como à Quinta do Castelo e ao Parque da Cidade, cantos de encanto e de história onde o verde e a memória se dão as mãos.
Nas tradições e nos costumes, Mozelos vive muito da sua devoção a São Martinho, figura que une a comunidade e dá sentido ao calendário das suas celebrações. É uma terra de fé, de procissões e de festa partilhada, dessas em que a música, o convívio e o fervor religioso se misturam numa só alegria. E, como toda a região da Feira, Mozelos herda a tradição da fogaça, esse pão doce que é mais do que um alimento: é símbolo, é oferenda, é promessa feita massa e assada no forno, que anda de mão em mão em cortejo e enche de doçura os dias de celebração.
À mesa, Mozelos partilha os sabores da sua terra de Santa Maria da Feira. A estrela é, sem dúvida, a Fogaça da Feira, pão doce de festa que é o orgulho destas paragens. Mas há mais para provar: os caldos de nabos da terra, reconfortantes e verdadeiros, feitos com o que a horta dá; o bolo da panela, cozinhado à moda antiga; e, para adoçar a boca, os Biscoitos de Orelha e os Caladinhos, doçaria tradicional que sabe a infância e a casa de avó. São sabores humildes e honestos, nascidos de uma terra trabalhadora.
E trabalhadora é mesmo a palavra, porque Mozelos distingue-se pela produção de cortiça, essa arte que transforma a casca generosa do sobreiro em matéria nobre e procurada. É um ofício que exige saber e paciência, e que faz desta freguesia um nome a reter no mundo da cortiça. Nas mãos das suas gentes, a tradição e a indústria convivem, e a terra continua a dar frutos — como dá há mais de mil anos. Mozelos é, no fim de contas, uma terra que soube guardar a memória sem deixar de olhar em frente, e que recebe quem a visita com a franqueza de quem tem muito para contar.