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Curral das Freiras

Um vale de castanheiros guardado pelas montanhas da Madeira.
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sobre a localidade

No concelho de Câmara de Lobos, o Curral das Freiras repousa no fundo de uma caldeira rodeada de encostas íngremes, entre socalcos e castanheiros. O nome recorda o século XV, quando as terras doadas por João Gonçalves da Câmara passaram às suas filhas, Elvira e Joana, freiras no convento de Santa Clara. A padroeira é Nossa Senhora do Livramento, eixo espiritual de uma comunidade serrana e recolhida.

história

Há lugares que o nome guarda como um segredo de família, e o Curral das Freiras é um deles. Diz a memória antiga que estas terras, no século XV, pertenciam a João Gonçalves da Câmara, que as doou às suas filhas, Elvira e Joana, freiras no convento de Santa Clara. Daí nasceu o nome que ficou colado para sempre a este vale guardado pelas montanhas: o curral que era das freiras de Santa Clara. É uma origem rara, quase de lenda, mas verdadeira, e explica porque esta freguesia carrega no próprio nome uma herança de devoção e de posse monástica. A terra foi crescendo a seu modo, serrana e recolhida, rodeada pelas vizinhanças de Santo António e do Estreito, abraçada por encostas íngremes e por nomes de sítios que sabem a lugar vivido: a Achada, os Balseiros, a Capela, o Pico do Furão. Quem desce até ao vale sente logo que entrou noutro mundo, um fundo de caldeira onde as casas se espalham por entre socalcos e castanheiros, e onde as gentes aprenderam a tirar da montanha o que ela quis dar. A padroeira é Nossa Senhora do Livramento, nome que acompanha a comunidade há gerações e que lhe dá o eixo espiritual em redor do qual a vida se foi organizando. O património do Curral das Freiras não se mede por grandiosidades, mas por lugares que têm alma. A Igreja de Nossa Senhora do Livramento é a referência histórica da freguesia, o coração construído de uma comunidade que sempre olhou para o céu por entre os cumes. Há também a Igreja de Nossa Senhora da Piedade, o Centro Histórico que convida a um passo mais lento, a Praceta de São Cristóvão e o Pomar Público, cantos onde a vida de todos os dias se encontra. E depois há os miradouros, que são talvez a maior dádiva deste vale: o Miradouro da Eira do Serrado, de onde se abraça a caldeira inteira com um só olhar, e o Miradouro da Fajã Escura, debruçado sobre a paisagem funda e verde. Guardam-se ainda memórias nos lugares humildes e sinceros como o Poço dos Chefes e o Lavadouro Público, onde outrora se cruzavam vozes e trabalho, e o Museu da Castanha, que presta homenagem ao fruto que define a identidade desta terra. Os costumes do Curral das Freiras são os de uma gente agarrada à montanha e ao calendário que ela impõe. Aqui, a agricultura foi sempre a espinha dorsal da vida, com a castanha e a ginja a marcar o ritmo das estações e das colheitas. É uma comunidade que soube preservar as suas tradições, que faz questão de manter vivos os saberes antigos e de os passar de uma geração para a outra. O orgulho da terra sente-se em cada gesto de quem continua a cultivar as encostas e a transformar os frutos em iguarias, mantendo acesa uma herança que é tão rural quanto afetiva. Mas é à mesa que o Curral das Freiras conquista de vez quem o visita. A castanha é rainha absoluta, protagonista de doces regionais e de pratos que aquecem os meses mais frios, e o seu tempo de glória vai de outubro a dezembro, quando o vale inteiro cheira a castanha assada. A ginja, a cereja desta terra, dá origem aos licores que ganharam fama bem para lá das montanhas, companhia de licores de amêndoa que fecham uma refeição com doçura. E há ainda um tesouro menos conhecido, o brigalhó, um tubérculo da família do inhame que se colhe entre abril e maio e que entra em diversos pratos tradicionais, lembrando que a cozinha serrana é feita de aproveitamento e engenho. Entre doces regionais, licores e os sabores da montanha, o Curral das Freiras oferece uma gastronomia que é, ela própria, uma viagem pela história do vale. Visitar o Curral das Freiras é descer a um lugar que o tempo tratou com carinho, onde as montanhas fazem de guardiãs e onde cada castanheiro conta um pedaço da memória de quem aqui vive. É uma terra que se revela devagar, no silêncio dos miradouros, no sabor de uma castanha assada e no acolhimento de gentes que nunca deixaram de amar o seu vale.